Ser adulto não deveria significar perder a leveza de uma criança. Crescer é inevitável, mas endurecer é uma escolha. A vida adulta chega carregada de responsabilidades, prazos, contas, decisões e pressões. Aos poucos, muitas de nós vamos perdendo o brilho no olhar, a espontaneidade, a curiosidade e a alegria simples de viver. Mas talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente em resgatar aquilo que deixamos no caminho: o encanto, a inocência e a pureza de quem vê o mundo como novidade todos os dias.
Viver como uma criança não significa agir de forma imatura, tampouco fugir dos compromissos que a vida adulta exige. É, na verdade, um exercício de consciência. É manter viva a capacidade de se encantar, de se permitir sentir, de rir com o corpo todo, de sonhar alto e acreditar que o bem sempre vence, ainda que a realidade, às vezes, pareça dizer o contrário. É saber que amadurecer não é o mesmo que endurecer. Como disse Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, o meu livro favorito: “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso.”

Quando foi a última vez que você se surpreendeu com algo simples? Que observou o céu mudando de cor, o vento brincando com as folhas ou o som da chuva batendo na janela sem pressa? Crianças têm essa habilidade extraordinária de viver o presente. Elas não ficam presas ao passado nem ansiosas com o futuro. Elas habitam o agora com intensidade. E talvez esse seja um dos maiores aprendizados que podemos resgatar: viver o hoje como se fosse o primeiro e o último dia.
Na correria da vida adulta, esquecemos de brincar. E brincar, no sentido mais profundo da palavra, é permitir-se estar leve, é fazer algo apenas pelo prazer de fazer, sem buscar aprovação, sem medir resultados. É cozinhar sem receita, dançar sem ritmo, cantar desafinado, rir de uma piada sem graça, caminhar sem destino, ou se permitir um dia inteiro sem culpa. Brincar é dar espaço ao que é espontâneo. É permitir que o riso desarme o cansaço. Como dizia Nietzsche, “a maturidade do homem é ter reencontrado a seriedade com que brincava quando era criança.”
Ser adulto com alma de criança é olhar para o mundo com curiosidade. É não se acomodar com respostas prontas. É questionar, aprender, desaprender e recomeçar quantas vezes for preciso. Uma criança não tem medo de errar. Ela tenta, cai, levanta e tenta de novo. Quantas vezes você deixou de viver algo bonito por medo de errar? Quantos sonhos você engavetou por medo de ser ridicularizada? As crianças não carregam esse medo do julgamento; elas se lançam ao novo com coragem e inocência. E é disso que a vida precisa: de mais coragem e menos controle.
Também é possível viver como criança quando cultivamos a curiosidade pelo outro. Lembra quando éramos pequenos e queríamos saber o nome de todo mundo, fazer amizade com quem cruzasse o caminho, compartilhar o lanche, oferecer ajuda, sem esperar nada em troca? A pureza infantil não entende de interesses, entende de conexão. O olhar infantil vê o outro antes do rótulo, antes da aparência, antes da diferença. Quantas vezes você se fecha em si mesma, julgando ou evitando se aproximar de alguém por medo, preconceito ou pressa? Ser adulto com alma de criança é permitir que o coração fale mais alto que o ego.
Há sabedoria em quem brinca, em quem ri, em quem se encanta. Há maturidade em quem entende que o trabalho é importante, mas que a vida não pode se resumir a cumprir tarefas. Uma criança não mede o valor do tempo pela produtividade, e sim pela intensidade. Para ela, dez minutos de brincadeira valem mais do que horas de tédio. E nós, adultos, esquecemos o quanto o tempo é feito de instantes. Que tal transformar um café solitário em um momento de prazer? Que tal parar para ver o pôr do sol sem o celular na mão? Que tal abraçar mais e falar menos?
Outra forma de viver como criança é cultivar o espanto diante da beleza do mundo. A primeira vez que uma criança vê o mar, seus olhos brilham de um jeito que nenhuma fotografia conseguiria capturar. O mar é o mesmo, mas o olhar muda tudo. Quantas belezas você deixou de enxergar porque já as considera comuns? A rotina, quando vivida sem consciência, rouba o encantamento da vida. Mas o olhar de uma criança devolve o colorido ao cinza dos dias.
E há algo ainda mais profundo: crianças têm fé. Não necessariamente uma fé religiosa, mas uma confiança natural na vida. Elas acreditam que as coisas vão dar certo, que os machucados saram, que o amanhã será melhor. Com o tempo, nós vamos perdendo essa fé. Passamos a duvidar, a desconfiar, a esperar o pior. Viver como criança é, também, confiar novamente. É acreditar que o bem volta, que o amor cura, que o tempo resolve. É ter esperança mesmo quando o caminho parece nublado.
Mas é claro que nem sempre é fácil. A vida adulta tem suas dores, perdas e exigências. Há contas a pagar, responsabilidades, dores que uma criança talvez não conseguisse suportar. Ainda assim, a leveza pode coexistir com a responsabilidade. A sabedoria está em não permitir que o peso do mundo apague o brilho da alma. A leveza não é ausência de problemas, é uma escolha consciente de olhar para eles com serenidade.
Talvez viver como criança seja lembrar que a felicidade não está nas grandes conquistas, mas nos pequenos gestos: na gargalhada inesperada, no abraço demorado, no cheiro do café fresco, no som da chuva à noite, no toque de quem amamos. É viver com o coração aberto, disposto a sentir, a perdoar, a recomeçar.
Você ainda sabe brincar com a vida? Ainda sabe se encantar com as pequenas coisas? Ainda se permite errar sem se punir? Ainda acredita no amor, na bondade, na simplicidade? Se a resposta for “não”, talvez seja hora de reaprender com as crianças o que a pressa nos fez esquecer.
Porque viver como criança é, no fundo, uma forma de sabedoria. É entender que a vida é breve e preciosa demais para ser levada tão a sério. É rir das próprias falhas, é aprender com o inesperado, é não se deixar endurecer. É manter o coração desperto, mesmo quando o mundo parece adormecido.
Então, que nunca nos falte a coragem de brincar, a curiosidade de descobrir, o encantamento de recomeçar. Que saibamos cuidar da vida com responsabilidade, mas também com ternura. Que sejamos adultos conscientes, mas com alma leve o bastante para sorrir sem motivo.
Como disse Pablo Neruda: “A criança que não brinca não é uma criança, mas o adulto que não brinca perdeu para sempre a criança que vivia nele.” Desejo que possamos reencontrar essa criança que ainda habita em nós – curiosa, esperançosa e cheia de vida.
E que cada dia seja vivido com a pureza, a curiosidade e a alegria de quem acaba de chegar ao mundo porque, no fundo, todos os dias são recomeços disfarçados.
Feliz Dia das Crianças para todas as crianças que ainda moram dentro de nós. moram dentro de nós.


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