RESENHA: O GÁRGULA, DE RICARDO DA CUNHA MELLO — UMA CRÍTICA DO PODER NO BRASIL

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Antes de mergulhar nesta resenha, vale um aviso importante: o texto a seguir contém spoilers do romance O Gárgula, de Ricardo da Cunha Mello. Detalhes relevantes da trama, da construção dos personagens e dos desdobramentos narrativos serão abordados ao longo da leitura. Caso ainda não tenha lido o livro e prefira manter a surpresa, recomendo que retorne aqui após a experiência completa da obra. Se decidir continuar, prepare-se para uma análise profunda e reveladora.

O Gárgula, do escritor Ricardo da Cunha Mello, é uma obra que escancara, em forma de realismo fantástico, o funcionamento perverso das estruturas de poder no Brasil. Inspirado pela teoria do estamento, desenvolvida por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder, o romance mergulha em uma crítica profunda ao modo como o Estado se organiza não para servir ao bem comum, mas para atender aos interesses privados de uma elite que se apropria da máquina pública como extensão de seus privilégios.

Ricardo da Cunha Mello, paulistano radicado em Jundiaí, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo e exerceu a advocacia e a Procuradoria Federal até se aposentar em 2020. Desde então, dedica-se integralmente à escrita de contos, crônicas, haicais e romances.

A ideia de criar o Clube do Livro A Entropia dos Autores surgiu do próprio autor, como uma proposta apresentada à Câmara Setorial de Literatura de Jundiaí, sendo acolhida com apoio do Grêmio Cultural Profº Pedro Fávaro.

Quando a proposta foi aceita, tive a honra de assumir a coordenação do projeto. Nosso objetivo é valorizar e divulgar a produção literária local, aproximando leitores dos autores de sua própria cidade. Por ter sido idealizador da iniciativa, foi natural que o primeiro livro escolhido para leitura fosse O Gárgula, obra de estreia do clube.

A narrativa parte de um ambiente denso e opressivo: um cartório do Poder Judiciário de uma cidade do interior, onde dois homens – o juiz Bernardo e o seu subordinado, o cartorário Valdredo – convivem com a lentidão processual, o formalismo excessivo e a frustração cotidiana. O cartório é um microcosmo do Estado, símbolo da burocracia que consome o tempo, suga energias e empurra os processos com artifícios legais, sem jamais chegar a uma conclusão. Além da morosidade da justiça, os dois homens compartilham algo mais íntimo e simbólico: a impotência sexual. Esse detalhe, longe de ser apenas biográfico, serve como metáfora potente para a esterilidade institucional que os cerca.

Deste ambiente caótico e estagnado, nasce um ser híbrido, criado artificialmente, fruto do desejo de transformação: o Anjo de Papel. Uma criatura que não fala, mas se comunica por escrito. Come processos e peida decisões. Ele representa a encarnação da eficiência, da justiça imediata, da ruptura com o marasmo.

Em pouco tempo, revoluciona o sistema judiciário. Acaba com a burocracia, acelera sentenças, executa decisões. O que era um sonho para muitos – ver a justiça funcionando – rapidamente se transforma em pesadelo. A eficiência de Anjo desestrutura a lógica do poder. Empresas falem, a prefeitura é responsabilizada por seus atos, os devedores são cobrados. A economia, habituada à lentidão e aos vícios do sistema, entra em colapso. O próprio funcionamento do Estado é posto em xeque. A justiça passa a ser feita – e isso, paradoxalmente, ameaça a estabilidade dos que sempre lucraram com a injustiça.

A resposta do estamento, como teorizado por Faoro, é previsível: elimina-se o risco, mesmo que o risco seja a justiça. Anjo é isolado, levado para os porões de uma universidade onde recebe a “educação” de Afonso, um professor apático. É um momento de doutrinação, de tentativa de reconfigurar o poder nascente.

Durante este tempo, Anjo de Papel lê toda a biblioteca, supera seu mentor medíocre e, em busca de sentido, decide experimentar o mundo. E paga um preço caro por isso: é acorrentado e escravizado.

Nesse ponto, a narrativa passa a espelhar a jornada do herói, mas com camadas mais densas e simbólicas. O Anjo de Papel – que ao longo da história muda de nome, como quem muda de identidade e de propósito – passa por diferentes estágios da pirâmide de Maslow: primeiro sobrevive, depois busca segurança, depois amor e pertencimento, reconhecimento, e por fim, a autorrealização. Sua evolução é marcada por sucessivas tentativas de transformação da sociedade e experiências com o poder, ora como líder religioso, ora como traficante e chefe de facção (justiça paralela), ora como secretário municipal (o poder legalizado) – sempre com o mesmo objetivo: implantar um novo sistema, moldar às regras da burocracia cartorária.

Esse processo não se dá sem dor. O autor não economiza em cenas fortes, com violência e sexo, que expõem tanto os limites do corpo quanto os do espírito humano. Tudo isso contribui para a densidade da narrativa, que não poupa o leitor de desconfortos. Mas esse desconforto é proposital: a obra não é feita para agradar, mas para provocar reflexão.

Anjo causa uma transformação profunda por onde passa. As pessoas mudam, tornam-se melhores, alcançam sonhos, mas não por milagre – e sim porque ele cria as condições para que isso aconteça. Há uma crítica clara ao sistema vigente, mas também uma esperança de mudança possível, ainda que não venha sem rupturas.

Quando se vê ameaçado, Anjo/Processo, foge e se esconde na periferia de outra cidade, onde continua articulando mudanças. Influencia, lidera, organiza. A política, a religião e a criminalidade tornam-se meios – nunca fins. Ele quer instaurar um novo paradigma. E ele consegue. O sistema é implantado – o “sistema assinado que levaria séculos até a próxima degenerescência”. E a vida… segue.

A linguagem do autor é madura, consistente, por vezes poética, por vezes, crua. Há ironia, há crítica, há densidade filosófica. O uso do realismo fantástico – recurso que remete a autores como José Saramago e Franz Kafka – permite que o absurdo se torne natural, e o natural, absurdo. Com isso, o leitor é convidado a refletir sobre o que, afinal, é mais chocante: um bebê que come processos e peida decisões ou um país onde processos não andam e a justiça nunca chega?

O Gárgula é, portanto, mais do que um romance. É um manifesto. Uma alegoria brutal sobre o Brasil estamental. Uma provocação à lentidão institucional, à injustiça crônica, à indiferença social. Ricardo da Cunha Mello entrega uma narrativa ousada, provocadora, e profundamente brasileira – no melhor e no pior sentido.

A escolha de O Gárgula para inaugurar o Clube do Livro A Entropia dos Autores foi certeira. O clube, além de valorizar autores locais, mostra que a literatura contemporânea produzida em Jundiaí é capaz de tocar feridas nacionais com profundidade, coragem e sofisticação. Um livro que provoca, inquieta e transforma – como todo bom livro deve ser.

📖 Quer embarcar nessa leitura provocadora e instigante sobre justiça e poder?

Adquira O Gárgula, de Ricardo da Cunha Mello. Um romance que vai mexer com suas ideias – e com o sistema.

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